10/05/2012

I ECELENA

por Blog da Cátedra

Depoimento de Patrícia da Costa Pina

 O  I ECELENA/I EGPLEC foram encontros conjugados, ocorridos na UNEB, no DCH VI, em Caetité, Bahia, de 16 a 19 de abril deste ano. Durante quatro dias intensos, longos e muito proveitosos, nossos conferencistas e palestrantes nos levaram a um mergulho profundo e, às vezes amendrontador, no mundo da LEITURA.
 

Aprendemos sobre a multi/inter/transdisciplinaridade, com a querida Dra. Maximina Maria Freire (PUC-SP); sobre as fronteiras da leitura entre a lingüística e a literatura com a Dra. Dilcélia Almeida Sampaio(UNEB); sobre a obra de Mia Couto e suas destinações empíricas, com o Dr. Flávio Garcia(UERJ/UNISUAM); sobre a oralidade e a formação de leitores, com a Dra. Edil Silva Costa (UNEB); sobre a leitura de mundo pelo estudo das Ciências, com o MSc. Elizeu Cruz (UNEB); sobre as relações entre Direito, Cidadania e Leitura, com o Dr. Paulo Cezar Martins(UNEB); sobre a importância da relação entre literatura e cultura na formação de leitores, com o Dr. Aleílton Fonseca(UEFS).

Aprendemos sobre a importância da leitura literária para nossa sensibilização, humanização, para nos abrir os olhos e o coração em direção aos muitos textos do mundo, com nossa mestra maior, nosso modelo de pessoa e de pesquisadora, a Dra. Eliana Yunes (PUC-Rio), Cátedra UNESCO de Leitura). Obrigada, Eliana! Obrigada por estar conosco e por nos guiar em nossas muitas tentativas de estudar a leitura e formar leitores!

Em nossas mesas redondas, discutimos a formação de leitores em língua inglesa; as imagens e a leitura; as importantes relações entre história, memória, literatura e cultura na formação de leitores; o livro didático na formação de leitores; o lúdico, o imaginário e a literatura infantil e juvenil; as mídias, suportes e tecnologias; as relações entre currículo, escola e formação de leitores; as muitas diversidades e a formação de leitores. 

Debatemos estratégias de formação do leitor com estudantes e professores. Emocionamo-nos muito com os depoimentos das alunas da Plataforma Freire/Letras, do DCH VI da UNEB, no "Era uma vez, sem fantasia..." - momento inesquecível. Visitamos a belíssima exposição da Biblioteca Móvel da Casa Anísio Teixeira, guiada por seus membros. Visitamos o stand de livros da EDUNEB e pudemos comprá-los a preços promocionais. Aprendemos com D. Tonha, da Associação de Mulheres de Riacho de Santana e com Malu, do Ponto de Leitura de Riacho de Santana. Conhecemos a Dança da Jibóia e a D. Mariquinha, com o grupo de Riacho de Santana.

Deliciamo-nos com as apresentações de suas obras literárias, feitas por Marco Haurélio, Nadja Nunes e Aleiton Fonseca.

Entregamos, numa belíssima cerimônia, os prêmios  aos vencedores do  I Concurso Literário Nadja Nunes. Inauguramos nossos Laboratórios, com uma atividade de Leitura no  Laboratório de Leitura Monsenhor Antonio Raimundo dos Anjos (LALE) e recebemos a doação de uma caixa de livros da EDUNEB e vários exemplares de obras de Aleílton Fonseca, Adeítalo M. Pinho e Rosana Patrício, para começarmos nossa biblioteca  do laboratório.

Tudo isso aconteceu graças à boa vontade, competência e generosidade de nossos convidados. E, claro, ao trabalho árduo, mas educado, cuidadoso e generoso, também, de nossos Monitores , Professores e Funcionários.

Foram quatro dias de Cultura, Conhecimento, Acolhida no Departamento de Ciências Humanas, Campus VI, da UNEB, em Caetité.

Que esses dias se multipliquem pelos anos vindouros e que sempre possamos aprender, e que sempre possamos formar leitores.

 

Tags: I ECELENA/I EGPLEC,Caetité,Bahia,leitura,transdicisplinaridade

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17/04/2012

Por uma leitura da leitura

por Blog da Cátedra

Por Sergio Rivero


De volta do seminário Retratos da Leitura do Brasil, em Brasília, onde foi apresentada a terceira edição de uma pesquisa quantitativa sobre um tema sempre preocupante, volto estarrecido. Nem tanto pela pesquisa, que pouco se diferenciou das edições anteriores (2000 e 2007), mas preocupado, sim, com a limitação dos conceitos que hoje ainda permeia o que chamamos de ‘Leitura’.

Sou cria do hoje agonizante Programa Nacional de Incentivo à Leitura, o PROLER, que vai sumindo do mapa por falta de um QG (tal como funcionava a Casa da Leitura, entre 92 e 96) que o conecte de novo em rede, e que o faça resgatar seus tempos áureos de Política Pública nascida da sociedade civil. Pois bem, lá, há quase vinte anos atrás, imersos na ‘Leitura de Mundo de Paulo Freire’, espaço terno de acolhimento para todas as linguagens, o que nos bastou fazer era ampliar os conceitos de leitura e texto, trazer todas as linguagens para o exercício pleno da produção dos sentidos, destacando a literatura como trampolim para a reflexão, e contribuir na formaçao de mais e mais cidadãos. Era simples assim.

Hoje vejo que do muito que já se falou lá atrás, ainda falam de novo, e falam como se fosse novidade. Mas, se formar leitores é tarefa árdua, sempre vão merecer destaque − e é claro que o PROLER é a inspiração − todas as iniciativas em todos os espaços da sociedade, sem distinção. Vejo o Estado brasileiro com excelentes ações neste sentido, iniciando políticas que hão de se tornar mais densas se não forem atropeladas por novas gestões desconectadas do bem público; e vejo a sociedade civil prosseguindo em seu silencioso trabalho de formiguinha incansável.

Por isso me surpreendo quando no tal seminário, de dentro do próprio MinC, ouço dizerem que é uma bobagem a ‘desescolarização da leitura’. Eu poderia citar pelo menos uns dois programas, que me lembre sem nenhum esforço, capitaneados hoje pelo MinC, e que trabalham a leitura, não na escola, como a obviedade espera, mas na vida em sociedade.

Acho necessário explicar que este conceito da ‘desescolarização’, abertamente usado pelo PROLER que experimentei, não pretende tirar da escola sua responsabilidade, mas, por outro lado, urge, mais do que nunca, incluir a escola, leia-se a Educação, no campo maior que certamente a contém e não a rejeita: o da Cultura.

Se fazemos isso, fica claro que a responsabilidade pela leitura é de todos. Já na escola, sabemos, a leitura é sempre matéria-prima de todas as disciplinas que compõem as grades curriculares do ensino, em todos os níveis escolares, do fundamental ao superior. A leitura é muito claramente o lugar comum dos saberes.

A limitação de conceitos como texto e leitura, que ficam amarrados ao texto escrito, bem como ao letramento, como únicas referências possíveis, o que parece funcionar, unicamente, como uma espécie de tábua de salvação para alguns profissionais, é o que também acaba justificando que muitos leitores, entrevistados na referida pesquisa, digam ingenuamente que não leem mais, pois já saíram da escola.

Vejo também que toda a munição pesada que o Estado brasileiro dispara na direção da inclusão digital, lugar pleno das multimidiações, não surtirá nenhum efeito se permanecermos arcaicos em discursos que parecem existir para defender zonas de profundo conforto, ainda separando, teimosamente, aqueles que sempre merecem estar em constante diálogo. O mundo está aí todinho para ser lido, mas, em tempos de parecer o que não somos, vamos apenas carregando, muito prosas, em arrojadas mochilas, toda esta tecnologia fashion que o nosso tablet da hora ostenta. E é só.

Entre a ‘escolarização do pavor de ler’, e a banalização da leitura, por todos os cantos e recantos da sociedade, fico com a segunda opção.

Que a leitura se perca na cidade. Que assim, acertadamente errante, empoderada de todos os textos do mundo, seja em que linguagem forem eles concebidos, a leitura possa construir sua autonomia e maturidade. E que ela encontre, para recebê-la, também em constante renovação, uma escola mais integrada ao ato de ler o mundo.

Sérgio Cerviño Rivero é Arquiteto, Mestre em Teoria Literária, Doutor em Comunicação e Assessor para as Políticas Públicas do Livro e da Leitura da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

Tags: Leitura,Retratos da Leitura do Brasil,MinC

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Tien
Nepf4, fante1stica essa discusse3o. Acabei de maandr um email para vocea e so agora li esse post. Tudo a ver Vou citar um exemplo que aconteceu comigo nos ultimos dias: comecei a ler o twitter diariamente (pouco postando), e acrescentei ale9m das pessoas que me interessam (de opinioes impactantes) alguns twitter da midia tradicional (Veja, G1). Dai de1 para sentir os diferentes pf3los da mesma informae7e3o. E excluir o que je1 vou assistir no Jornal Nacional e compensar com as outras opinif5es. c9 um caminho longo a ser trilhado: essa liberdade de escolha de vise3o de mundo exige dicernimento, pensar. Nossa gerae7ao, de modo geral, ne3o tem essa pre1tica, mas a galerinha 2.0 vai criar um novo mundo, de fato.
Maria Luiza Saboia Saddi
Exelente abordagem, clara, ampla e incisiva. Junto os meus votos aos do autor ao final do texto.
28/03/2012

Sobre Millôr

por Blog da Cátedra

    Millôr Fernandes foi um artista múltiplo: jornalista, escritor, ilustrador, dramaturgo, fabulista, calígrafo, tradutor de Shakespeare, Molière, Brecht entre outros. Nasceu no Méier, zona norte do Rio, em 16 de agosto de 1923, bairro ao qual ele se referia como “Meyer” ou “Universidade do Meyer”, pois foi lá, segundo ele mesmo, que aprendeu muitas coisas durante a infância e adolescência.  Aos 17 anos, descobriu duas falhas em seu registro de nascimento: a primeira é que o haviam registrado um ano depois da sua data de nascimento original, 25 de maio de 1924, e também que seu nome não era Milton, como o chamavam, mas redigido à mão pelo tabelião, o nome mais dava a entender Millôr que Milton, erro ortográfico que passou a adotar imediatamente.

      O escritor considerava os quadrinhos sua maior influência intelectual, mas foi a partir de um concurso de crônicas da revista A Cigarra que começou a trabalhar com o editor Frederico Chateaubriand, o mesmo que, um dia, por acaso, chamou o jovem Millôr, às pressas, para ocupar uma coluna vazia a qual assinou como Vão Gogo e cujo sucesso foi tão grande que o pseudônimo ganhou espaço permanente na coluna "Poste escrito". Trabalhou também para O Guri, Diário da Noite e O Cruzeiro.  Ao sair desse último, criou para a TV Excelsior o quadro chamado “Lições de um ignorante”, logo censurado por Juscelino Kubistchek. Nos anos 60 reuniu-se a Jaguar, Ziraldo, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Paulo Francis, Ivan Lessa compondo a turma do Pasquim, humorístico que durou apenas quatro meses, por causa da censura.  E de censura em censura, o autor intitulou-se o escritor mais censurado pelos governos brasileiros.

Millôr pode também ser lembrado por ter criado a peça com o título mais curto da história do teatro e da literatura mundial: "É". Ou pelo livro Bíblia do caos, que cairia bem para batizar o conjunto da obra, entre hai-kais e peças teatrais, poesia e filosofia, tradução e computação, fábulas e máximas. Ou pelo epitáfio que preparou com a antecedência de uma vida: "finalmente, um autor sem estilo".

Coisas de gênio. “Se Leonardo dá vinte, Millôr é mil”.

      Porém, gostaríamos de reparar uma injustiça, evocando o gramático que a Casa de Machado de Assis deixou de consagrar.

No momento em que entra em vigor o Acordo Ortográfico, fica a lição do mestre para um dos mais intrincados problemas da língua portuguesa: o emprego da crase.

Do alto de sua janela na Avenida Vieira Souto, ao se espantar com a tabuleta "Obras à 50 metros", inimiga do seu sossego e da língua que tanto prezava, ele ensinou: crase, somente a partir de 100 metros.

Definitivamente, Millôr foi para uma Melhor. Pano rápido.
 

 

Carmélia  Aragão e Ricardo Oiticica

Tags: Millôr Fernandes,homenagem,humor

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01/03/2012

Lembranças de leitura

por Blog da Cátedra

Escrevi esse texto a pedido da minha amiga Bárbara Anaissi, que precisava de depoimentos sobre memórias afetivas de leitura para sua monografia de conclusão da pós em Leitura que ela estava fazendo aqui mesmo na Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio. Agora o compartilho com vocês no Blog da Cátedra.

Eu não tenho exatamente muitas lembranças de leituras passadas, são algumas apenas. Porém, são fortes e nítidas. Acho que porque são baseadas nas sensações que deixaram. Se você me perguntar o enredo exato dos livros, não vou lembrar. Um personagem ou outro, um cenário, quem sabe. Agora se me perguntar que sensações essas leituras deixaram, responderei de primeira: intensidade, muita tristeza e emoção, medo, enlevo.

Quando eu era pré-adolescente, morávamos num apartamento de fundos na av. Princesa Isabel. Eu, meu pai, minha mãe e duas irmãs mais novas. Eu e as meninas dividíamos um quarto quadrado, mas que tinha uma espécie de dente: um quadrado menor, cuja parede externa era totalmente ocupada pela única janela do quarto e que nós chamávamos de “cantinho dos brinquedos”. Ali moravam nossas cadeirinhas de balanço, um armário já pequeno, um quadro negro, alguns livros e, claro, o restante dos nossos brinquedos.

Minha cama ficava com a lateral colada à parede e de frente para o cantinho dos brinquedos e, consequentemente para a janela. Eu costumava dormir com os pés para ela e a cabeça para a porta do quarto – oposta à ela. Como o apartamento era de fundos, a luminosidade que entrava era difusa, entrecortada. Só a lua cheia, talvez pela sua grandeza, conseguia vencer as barreiras dos prédios vizinhos e invadir nosso quarto desenhando aquele lindo caminho de luz prateada. Seria só lindo se eu não tivesse o hábito de ler à noite, apenas com a luzinha do abajur de cabeceira acesa, de bruços, apoiando o tronco no travesseiro, para ficar com a cabeça elevada, e deixando o livro aberto no restante do espaço da cabeceira da cama.

 

Como já disse, eu dormia com o pé pra janela, portanto, se me deitasse de bruços, ficaria de costas para ela. E foi assim, de costas para aquela janela enorme e irregularmente iluminada, que eu li os livros da Agatha Christie. Madrugadas assustadoras a dentro, coberta até o pescoço na intenção de me proteger dos assassinos desconhecidos, morrendo de medo e conferindo o meu redor a todo instante, precisando dormir, mas sendo completamente vencida pela extrema curiosidade de descobrir o desfecho do mistério.

Assim, também de bruços e durante as noites, li Meu pé de laranja lima. Talvez eu fosse um pouco mais nova que na época da Agatha – não lembro direito agora. Desse livro, se você me perguntar, não sei mais nada. Sei apenas que chorei e chorei como nunca havia feito diante de uma leitura – hoje, no entanto, já faço muito isso. Era tanta emoção que não cabia nos olhos. O travesseiro molhava, a vista embaçava, a dor de cabeça chegava e eu não parava. Era dor pela história e prazer pela leitura ao mesmo tempo. Que sensação maravilhosa!

Minha última lembrança que eu considero que mereça ser mencionada, data da época em que eu era uma universitária já na idade de procurar o primeiro estágio. Então lá fui eu pra rua da Consolação, centro da cidade, pro CIEE, um centro que cadastrava estudantes e enviava currículos a empresas precisando de estagiários. Como não podia deixar de ser, havia fila, e também como não podia deixar de ser, eu tinha um livro na bolsa que viera lendo no metrô e continuei lendo na tal fila. O livro estava quase acabando, momentos finais da saga de um recomeço de leitura – anos antes eu tinha começado a lê-lo e não tinha conseguido passar da página 30. Não era o meu momento com aquele livro, com certeza. Eu o tinha escolhido e não ele a mim. Assim, a gente sabe que não funciona. Pra mim, temos sempre de esperar o tempo do livro, o tempo em que ele deseja ser lido por nós. A fila do lugar podia ser acomodada em cadeiras no salão, era só sentar e esperar ser chamada pelo nome previamente enviado. E a espera começou, página a página sendo devorada, minuto a minuto passando no relógio. E só acabou quando a pessoa sentada ao meu lado me cutucou, dizendo: ‘Você é Luciana? A moça do guichê já te chamou três vezes...’ O livro? Cem anos de solidão.”

Luciana Bastos Figueiredo

Tags: lembranças,leituras,sensações,depoimentos

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Luciana Bastos Figueiredo
Vai ser ótima conversar com a Dayse, Gilda. Mas acho que vou ter que ler o livro de novo antes, porque realmente me lembro muito pouco do enredo dele!
Gilda Carvalho
Lu, você tem que conhecer a Dayse, que fez o Destrava conosco no ano passado. Ela é a maior leitora do Meu Pé de Laranja Lima que eu conheço!
25/01/2012

Leitura da cidade

por Blog da Cátedra

 

Nós, da Cátedra, formadores de leitores, sabemos que para se ler uma cidade é preciso acionar todos os nossos sentidos, principalmente o da visão, construindo um olhar de se ver e de sentir. Sabemos que não só isso, mas ter nessa leitura da cidade um olhar crítico, criativo, descobrir o seu movimento, suas adequações, suas decadências. Sabemos que isso ainda é pouco.

 

Ser leitor da cidade é usar as informações que colhemos dela e com nossos sentidos perceber o que essas nos provocam, e também nas pessoas que nela vivem, como por exemplo, difícil (mas não é impossível) manter-se em um estado depressivo quando se sai de manhã pelo Leblon, pelos cafés da Ataulfo de Paiva; ou difícil sentir-se desanimado no calçadão da orla do Rio. Por outro lado, difícil não ficar triste em Santa Teresa sem o bondinho; ou não ficar estressada com as dificuldades que o idoso passa como usuário dos meios de transporte e como andante nas calçadas esburacadas da cidade. Ser leitor é usar essas informações e perceber o tanto que elas nos afetam e o quanto podem contribuir para uma ação mais transformadora e humanizadora da cidade, sendo possível, poder recriá-la.

 São paisagens, cheiros, barulhos, sabores da nossa cidade que você vai identificando e incorporando no nosso acervo pessoal. Quem não sabe, ao passar por uma rua, que nela houve uma feira livre de dia? Quem não sente um bem-estar com cheiro de chuva, cheiro de mar e da mata? Quem não vê emocionado o arco-íris depois da chuva e o sol nascer atrás das montanhas? Quem não se incomoda com o barulho das britadeiras, das ambulâncias e das buzinas? Mas, por outro lado, quem não se alegra com o barulho do Metrô chegando, dos sinos anunciando, dos fogos comemorando?

 No Rio de Janeiro, especialmente, é preciso ser muito atento, criativo e condescendente com a cidade. Nosso olhar de carioca fica comprometido pelos apelos da mídia, que nos bombardeia todos os dias com as belezas do Rio. E é verdade: é a cidade mais bonita do mundo! Fica difícil ter-se um olhar crítico para nossa cidade, ela é linda e perversa ao mesmo tempo. Digo isso porque, no estresse dos engarrafamentos na Lagoa Rodrigo de Freitas, vemos ao lado uma das mais bonitas vistas da cidade; quando saltamos no ponto final dos ônibus da Gávea, depois de tropeçarmos e torcermos os pés nos buracos e desníveis das calçadas, entramos no oásis da PUC, com suas árvores seculares, um rio romântico, com pontes e flores, tudo à nossa disposição; quando o melhor da MPB, que se produz na Lapa, convive com a desesperança dos meninos de rua que lá circulam. São essas as contradições que vivemos no dia-a-dia do texto da nossa cidade.

 A experiência textual dicotômica que vivemos no cotidiano da nossa cidade é que nos faz leitores mais criativos. Por outro lado, talvez, corremos o risco de nos iludirmos com os inúmeros momentos de prazer que o Rio nos proporciona. Esse é o grande perigo, que pode tornar nosso povo e governantes mais acomodados, de olhos vendados e corações fechados para o que de perverso ela tem. 

 Mesmo correndo o risco - leitura é sempre arriscado – nós da Cátedra continuamos a formar leitores, bons leitores da nossa cidade; leitores sem olhos vendados e sem corações fechados. Essa é a nossa meta, essa é a nossa obrigação.

 Maria Helena Ribeiro   

 

Tags: leitura,cidade,Rio de Janeiro,cidadania

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Ana Clara Xavier
excelente texto, Maria Helena. muitos preferem fingir não ver essa grande discrepância e acham simplesmente a cidade maravilhosa por si só. outros metem o malho sem mover uma palha para mudar a realidade, é fácil dizer, "fazer é dever dos governantes", é o eles dizem.
eliana yunes
comprovamos que a leitura, como reflexão interação e interpretação dos discursos com que expressamos a realidade percbida, é fundamenral para a construção da subjetividade e da cidadania, isto é, do compromisso saudável consigo mesmo e com a coletividade. Nao é possível ignorar diante desta tragédia quanta leitura cega, indiferente, desconectada da realidade se tece no dia a dia das pessoas que habitam a cidade e dos administradores de papel que temos elegido. Se o prefeito ndasse a pé pela cidade conheceria o estado deplorável das ruas e calçadas, se não usasse elevadores privtivos saberia como andam nossos condomínios, se olhasse a decade^ncia dos prédios públicos que não frequenta sabeia como a decadência é a ante-sala do que acaba de ocorrer: a conservação é precária por toda parte e não há liderabáca que faça ver com amor os bens comuns. O maltrato da cidade é visível e se estende como sombra por toda parte... triste constatação.
maria fernanda
Maria Helena, acho que é o acontece com o Brasil em um todo, são tantas belezas, um povo amável, "simpático" que interpela nossas complacências e nublam o olhar mais crítico do cidadão. Como "desanuviar" isso aí?
18/01/2012

Mais breve que o susto

por Blog da Cátedra

   “Sou frágil o suficiente para uma palavra me machucar,

como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar”.

 

Bartolomeu Campos Queirós

                                                                                             

Mais breve que o susto e sem bilhete de partida, Bartolomeu, Bartô, para os que com ele conviviam, nos deixou, de madrugada, “neste momento frágil em que nem mesmo a natureza se define. Instante onde a verdade e a mentira se equilibram cuidadosamente”[1].
 

“Ele era como a madrugada: perto de acordar, mas ainda cheio de sono. Era um menino feito de coragem e medo.”[2] Assim o conhecemos, assim aprendemos a amá-lo e a admirá-lo através da sua produção literária, ou prosa poética, ou a mais pura poesia.
 

Tendo sua vida marcada pela solidão, sentimento que o acompanhou desde a infância, quando perdeu a mãe, sua obra memorialista, representada especialmente por  Ciganos (1982), Indez (1989), Por parte de pai (1995), Ler, escrever e fazer conta de cabeça (1997) e o  contundente Vermelho amargo (2011) fechando este ciclo, traduz a sua solidão. 

Hoje, com discrição, sem muito alarde, o menino se foi como os ciganos, “com sua maneira milenar de estar no mundo – nascendo em cada chegada e morrendo em cada partida, sempre a perseguirem o eterno”[3].
 

A mesma naturalidade com que Bartô narrava seus passeios pelo Jardim de Luxemburgo, período de criação de sua primeira obra, O peixe e o pássaro (1974), se fazia sentir quando falava acerca  da doença que o acometera ultimamente e que, aos poucos, o fragilizava mais e mais, acabando por afastá-lo de nós, agora sem retorno. Assim, referia-se às sessões de hemodiálise a que se submetia três vezes por semana, nos locais onde estivesse promovendo a leitura, e aceitava esta realidade com resignação, mantendo seu ritmo de trabalho, movido pelo compromisso que assumiu em sua experiência como escritor e arte educador.
 

Nascido distante do mar, “sabia sua fragilidade escrita nas vagas, seu desvelo em coroar com espuma o desmanchar-se em areia, seu afago para com os profundos jardins de algas, seu cuidado para não descolorir os corais”[4]. Assim como o mar que idealizava em sua fantasia, o cuidado marcou suas relações com os amigos e com os que dele se aproximavam. Com voz doce, em tom suave e pausado, sua conversa cativava e nos fazia sentir mais próximos daquele criador de histórias que podem “acontecer amanhã ou depois de amanhã, apenas no coração”[5].
 

O menino contido, que guardou entre suas lembranças o olho de vidro do avô, que com seu hábito de escrever nas paredes da casa todos os acontecimentos da pequena cidade em que moravam, despertou o leitor apaixonado e o escritor sensível que se escondia naquele pequeno coração, compartilhou essa experiência com todos aqueles que, como ele, acreditavam ser possível criar uma sociedade leitora.
 

Participando das ações do Proler (1992-1996), Bartô viajou por todo o Brasil em caravanas promovidas pelo programa e levou sua experiência aos mais distantes rincões, fazendo palestras que mobilizavam  plateias pela coerência  e compromisso irrestrito com a leitura, acreditando, como aprendeu com o avô,  que “leitura era coisa séria e escrever, mais ainda”[6].
 

Esta talvez seja uma das dimensões mais importantes da obra de Bartô,  entender a leitura como uma coisa séria, ou seja, como uma questão política, por se configurar como condição primordial para o acesso à cidadania.  Com a mesma poesia e sensibilidade que perpassa toda a sua obra, a leitura é tratada nessa dimensão em livros como Correspondência (1986), Apontamentos (1990), Onde tem bruxa tem fada (1979), atingindo seu ápice em De não em não (1998), onde a Fome que devora os miseráveis é a principal personagem. Com o mesmo lirismo e poesia que marcam toda a sua produção literária, o escritor faz, através dessa obra, uma crítica contundente a um sistema que exclui do direito à vida parte significativa da população, ainda na infância.  

 

Escritor completo, Bartolomeu Campos de Queirós nos deixa uma obra relevante, que atinge todas as faixas etárias, e nos lega a responsabilidade de continuar seu trabalho, perseguindo sem descanso o sonho de transformar o país através da leitura.
 

                                                                                                                       Stella de Moraes Pellegrini
 

(Autora de Caminhos e Encruzilhadas. Os percursos poético e político de Bartolomeu Campos de Queirós da formação do leitor à formação de leitores. Belo Horizonte, MG: RHJ, 2005.)



[1] Ciganos. Belo Horizonte: Editora Miguilim, 1997, p. 4.

[2] Id. Ibid. p. 1.

[3] Id. Ibid. p. 2.

[4] Ah! Mar... Belo Horizonte: Alis, 1999, p. 11.

[5] O peixe e o pássaro. Belo Horizonte, MG: Formato Editorial, 1991, p.15.

[6] Por parte de pai. 4ª edição. Belo Horizonte, MG: RHJ, 1995 p. 14

Tags: Bartolomeu Campos Queirós,falecimento,memória,literatura,

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